Foi-se o tempo da vovó: mulheres com mais de 50 anos reinventam a forma de encarar e curtir a vida

Cida Pimentel, uma avó de 59 anos vestida com um nada discreto casaco animal print, não hesita ao tentar definir sua relação com os netos. Encara a repórter com seus óculos gatinho e dispara: “Não dou limite nenhum. Sou a avó descontrole. Quer ver filmes de terror, vamos lá. Quer escutar punk rock no último volume, vamos lá.”

Sentada do outro lado da mesa, Sandra Tedesco, 60 anos, fica inquieta na cadeira. Pede a palavra para deixar seu registro: “Sou uma avó dura. Não é sempre “vovó” para cá, “vovó” para lá. Dou limite.”

Mas as duas entram em consenso logo em seguida ao reconhecer que os netos dividem espaço entre os muitos prazeres e afazeres da vida para a geração de avós de 50, 60 anos. “Tenho a minha vida com o marido que, inclusive, não é o avô da minha neta de fato. Ela entra no combo” – diz Sandra.

Reunimos para um bate-papo cinco mulheres que têm em comum a faixa etária, o fato de ter netos e, principalmente, de reinventar essa relação e o jeito de viver a maturidade. Além da produtora Cida e da funcionária pública aposentada Sandra, a autônoma Eugênia Ramos, 54 anos, a advogada Edna Kleinert, 57, e a professora universitária Maíra Baumgarten, 64, passaram uma tarde na Casa de Cultura Mario Quintana, trocando ideias para traçar o perfil da avó contemporânea. Essas mulheres independentes entendem seu papel de referência na família, mas não vestem a camiseta de “babá de neto”. Estão mergulhadas em uma série de compromissos que passam por trabalho, viagens, academia, balada e barzinho.

Mesmo com estilos de vida distintos – Eugênia, por exemplo, adora surfar e fazer slackline, enquanto Edna curte mesmo ir aos jogos do Grêmio –, o quinteto não se reconhece naquela velha imagem da avó que fica em casa fazendo bolo, vendo novela e brincando com os netos. Edna acredita que essa personagem vai ficar para mais tarde ou, talvez, nunca apareça: “Minha experiência é bem diferente do que a sociedade julga ser avó. Cozinhar é um hobby, é para divertir. Não tenho dia para cuidar dos netos, não estou sempre à disposição.”

Claro que é muito gratificante estar com a família, temos momentos maravilhosos. Só que, diferente do tempo da minha avó, hoje a gente com 57 anos está começando a viver. Mas a liberdade de ser uma avó fora dos antigos padrões pode incomodar. Cida costuma enfrentar olhares tortos em razão de suas tatuagens. Já Eugênia conta que aprendeu a lidar com comentários maldosos sobre seus gostos esportivos: “As pessoas ficam dizendo ‘O quê? Aquela velha quer surfar?’. Tem preconceito, olhares de fora e de dentro da família. As pessoas dizem que não me ponho no lugar. Precisamos ser bem-resolvidas, é a minha vida, não devo nada para ninguém. Sou só uma avó que ama seus netos e sua família.”

O maior desafio

Desfrutando de mais liberdade do que suas próprias avós, a nova geração de mulheres entre 50 e 60 anos tem a agenda lotada e tenta aproveitar os lazeres da vida. Mas, via de regra, muitas ainda enfrentam o mesmo desafio de séculos passados: a pressão da sociedade para que a avó seja uma personagem do lar que abdica de seus planos.

“Antes, a vida da mulher era isso: filha, mãe, avó. Era o que a definia e só o que ela poderia ser. Ainda sofremos com esses ecos. A sociedade cobra das mães que elas sejam consagradas ao culto do filho, e se cobra das avós a mesma coisa. Mas as novas avós são novas mulheres, que estão reinventando um projeto de vida”, diz a psicanalista Diana Corso, 57 anos.

As novas avós dão de ombros para o que os outros pensam. Preferem acumular funções para conciliar a vida pessoal com o relacionamento familiar – podendo sobrepor pelo menos oito papéis, como explica Jane Felipe, 57 anos, professora integrante do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero, da UFRGS: “Profissionais, mães, administradoras do lar, esposas ou namoradas, administradoras de nós mesmas em uma sociedade que preza pelo embelezamento feminino, ótimas alunas se ainda querem estudar e cuidadoras dos mais velhos e, ainda, dos netos. E é esse papel de cuidadora que acaba ganhando mais espaço na maioria das famílias brasileiras. Não estar envolvida no cuidado de outros é privilégio.”

Dados divulgados neste ano pelo IBGE comprovam: as mulheres ainda dedicam 73% a mais de tempo aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos do que os homens. E os números só crescem conforme a idade da mulher aumenta. O ponto de atenção, alerta Diana, é não perpetuar o ciclo de cobranças sobre as avós: “Muitas vezes, praticamos isso umas com as outras. A avó cobra dedicação da nova mãe, assim como a filha também cobra da mãe. São cobranças de uma sociedade machista, mas as mulheres acabam encarnando alguns desses valores.”

 

Fonte: Revista Donna

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